segunda-feira, 5 de abril de 2010

Amizade

Um dos sentimentos mais inexplicáveis do mundo;
Basta um aperto de mão, um olhar para cair com os pés no chão
No abismo mais profundo;
Cavado dentro de nosso coração!

Basta uma lembrança tua; uma imagem, um gesto...
A flor só precisa da madrugada pra derramar seu orvalho,
Assim como minha alegria só precisa de um sorriso modesto
Para caminhar até tua presença por esse atalho...

A amizade é o mais incerto dos sentimentos;
Molda-se tão certa como as águas de um riacho...
Pode desembocar nela mesma, ou no amor...

Deixa para trás todos os sofrimentos;
E corre escondendo em si, lá embaixo,
As lágrimas de tua dor...

quinta-feira, 18 de março de 2010

Palavras

As palavras cortam o invisível
E deixam no silêncio relevos
Que ao toque mais sensível
Se desmancham em enlevo.

As palavras moldam o transparente
Como um vidro intocável
Que quebra num grito de repente,
Ou num suspiro se torna insustentável.

O silêncio é como uma carcaça
Com o esqueleto das palavras exposto
Sem nossa voz a dar movimento nem graça.

A palavra é um abismo ou ponte,
O abismo como ponte inclinada ao gosto
Do infinito, que dos nossos lábios desponte.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ponte japonesa


Ponte japonesa

Tua arquitetura busca a harmonia
Das tuas formas com a natureza;
Teu corpo, suave melodia,
Que ecoa de seus acordes pura beleza.

Em tua boca vive a filosofia budista;
Guarda a simplicidade de teus lábios
Os ensinamentos mais profundos dos sábios
Quando dispersas teus risos altruístas...

Teus risos são canções silenciosas ao céu;
Como os telhados de templos xintoístas
Que se curvam ao chão buscando o céu...

Teu olhar, como uma ponte japonesa,
Se curva diante de infinitos minimalistas
Como a luz no fundo das águas acesa...

quinta-feira, 4 de março de 2010

Outro vidro

De todas as coisas,
a única que quando quebra, faz silêncio,
é a palavra...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Metáforas

Desnuda as palavras das vestes
Rasgadas pelas bocas insensíveis;
Dá-lhes a roupa que pusestes
Em teus sonhos impossíveis.

Sua linha costurada no verso
Por agulhas de linhas infinitas
No lápis que cria furo diverso;
Nas letras, argolas de malabaristas.

Argola que tua língua toca
E seu sentido do comum desloca
Quando uma na outra enfias.

Abraço que o vazio esmaga;
Um coração no outro afaga
Uma nota de duas harmonias...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Semente

A palavra é como uma semente
Que germina no silêncio.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Katana


Katana
À Carlos Izumo (nos quintos do japão)

O homem deve ser como uma inquebrantável
Espada japonesa; ser coberto pelo metal mais duro,
Mas conservar seu cerne dobrável
Como o amálgama mais puro.

A cada golpe recebido a lâmina perfura
Mais profundamente o obstáculo mais denso;
Pois que a vida toda é uma armadura
Forjada do tempo imenso.

No entanto tua lâmina não sofre dano;
Pois escondido no metal mais resistente
Está o cerne que amortece o choque.

E embora a lágrima de teu olho desemboque,
Pensa nela como uma gema excedente
Que escorre do teu coração humano.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Declaração última

É por isso que agora me calo, pois se me faltam dedos para ti tocar, ao menos posso ti fazer cócegas com o meu silêncio.

Declaração segunda

O silêncio nada mais é do que palavras contorcionistas, que de tanto eu dobrar para ti dizer, por não serem em linha reta, acabam não entrando em teu ouvido, fazendo nele cócegas, para que não fiques tão tímida quando me calo.

Declaração primeira

Guardo as palavras que me destes embrulhadas na forma de silêncio, como um origami, pois como as horas dobradas sobre si formam a eternidade, tuas palavras contorcidas deixam seus espaços vazios a mostra.